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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2005
Norte de Portugal
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“Uma data longínqua!” - poderá pensar o senhor leitor. De facto ainda falta bastante tempo para Outubro de 2005, mas não há qualquer problema em preparar tudo antecipadamente. O próximo eclipse do Sol a ser visível de Portugal será anelar e será perfeitamente visível do Norte de Portugal (ver figura 1), tal acontecimento não passará com certeza despercebido da comunidade nacional de Astrónomos, quer sejam meros interessados, amadores ou profissionais (sim, sim também os há em Portugal). Pois bem, em Outubro de 2005 lá vamos fazer uma visita ao Norte do País para ver um eclipse anelar do Sol. Mas de que se trata um eclipse anelar do Sol? É apenas um eclipse do Sol. No entanto tem uma particularidade: em vez de vermos o disco solar reduzido a um crescente (ou seja com a aparência de uma Lua em quarto crescente) vê-lo-emos exactamente como um anel (figura 2).
Ao falarmos em eclipse a maior parte das pessoas compreenderá do que se trata, a maior parte saberá dizer que se trata da ocultação do Sol por parte da Lua, mas como se passa isso?

Capa: Eclipse total do Sol de Junho de 2001 (Chisamba, Zambia). Composição de fotografias tiradas por Fred Espenak. Página 5.

De facto a explicação correcta é essa: a Lua interpõe-se entre o Sol e a Terra.
A explicação contudo tem mais interesse do que há partida pode parecer. Um dos movimentos celestes que desde cedo fascinou o Homem foi o movimento da Lua, uma vez que a Lua não só era fácil de seguir como apresentava umas fantásticas variações ao longo do seu percurso. Na realidade uma vez que a Lua não emite luz própria, depende da luz do Sol reflectida para poder ser vista, e, como o seu movimento de translação em volta da Terra a coloca em diferentes posições relativas em relação ao Sol, diferentes zonas da Lua são visíveis pelo observador cá “em baixo” na Terra. A estas variação chamam-se fases da Lua, que todos as conhecemos (ver SAdeBolso Setembro 2002, “De cabeça na Lua”).

Ainda hoje o ciclo lunar tem aplicações imediatas que muitos desconhecemos, como por exemplo a marcação da Páscoa.

Figura 1: O caminho de ocultação total. A cinzento a zona onde o ecplise vai ser visível.

Deste modo, reconhecendo as fases da Lua e percebendo que elas se repetiam emintervalos de tempo regulares, o Homem obteve uma forma de medir longos períodos de tempo, períodos que abrangiam vários “ciclos solares” (os dias). A verdade é que muito dos calendários encontrados nas mais diversas civilizações antigas por todo o mundo são baseados no ciclo Lunar, um ciclo de vinte e nove dias e meio (não é por acaso que o “nosso” mês tem aproximadamente a mesma duração).

Figura 2: Eclipse anelar total. Foto por O. Steiger.

Ainda hoje o ciclo lunar tem aplicações imediatas que muitos desconhecemos, como por exemplo a marcação da Páscoa: o Domingo de Páscoa é o primeiro domingo depois da primeira lua cheia a seguir ao equinócio da Primavera (fruto certamente de crenças pagãs que se perdem na memória dos tempos).
Voltemos então aos eclipses. Quando a Lua se interpõe entre a Terra e o Sol, oculta-o, nesta posição a Lua não reflecte qualquer luz do sol em direcção à Terra.

Poderá então perguntar-se: porque não temos eclipses todos os meses no dia exacto da Lua nova? O que se passa é que a órbita da Lua está inclinada cerca de 5 graus o que faz com que a sombra da Lua não incida sobre a superfície terrestre mas sim um pouco ao lado. Ainda assim cerca de duas vezes por ano, essa sombra incide sobre uma determinada área do planeta Terra (ver figura 3), fazendo com que nessa mesma área, o Sol se eclipse totalmente durante alguns minutos.
A sombra da Lua tem duas componente: a umbra e a penumbra (ver figura 4). A penumbra é a zona mais externa da sombra e é devida a esta componente da sombra que se vêm os eclipses parciais, a umbra, a zona mais interna da sombra, é responsável pelos eclipses totais.
O que se vai então passar no Norte de Portugal em 2005? Este eclipse anelar acontece porque mais uma vez a trajectória da Lua em torno da Terra não é completamente circular, mas sim uma órbita ecliptica, com uma excentricidade de 13% (ou seja ao longo do seu movimento de translação a sua distância em relação à Terra não se mantém constante), desta forma umas vezes a Lua estará mais perto outras vezes mais longe, assim umas vezes terá um tamanho aparente suficiente paraezes terá apenas tamanho suficiente para ocultar um disco central menor que o disco solar (esta variação de tamanho angular ocorre ao longo do mês lunar - cerca de 29,5 dias - não explica porque nos parece maior a Lua quando ainda está próxima do horizonte e menor quando já vai alta, esse fenómeno não é mais do que uma ilusão de óptica)


A corona solar consiste em material a elevada temperatura a ser ejectado continuamente do Sol.

Figura 4: As duas componentes da sombra da Lua projectadas sobre a Terra.

É claro que não será um fenómeno tão espectacular como um eclipse total em que é possível nos momentos de ocultação total ver claramente a corona solar na sua verdadeira dimensão (a corona solar faz parte da atmosfera solar e consiste em material a elevadas temperaturas a ser ejectado continuamente do Sol, este material está sempre presente, no entanto quando o disco solar está visível a intensidade da luz emitida é tal que não nos permite distinguir a corona solar). A composição de várias exposições como a apresentada na capa deste boletim pode ainda mostrar-nos outros fantásticos fenómenos como as proeminências: ejecções maciças de plasma que se elevam da superfície solar e que apesar de se manterem ancoradas a esta podem atingir tamanhos consideráveis e manter a sua estrutura durante horas. Ainda assim um eclipse anelar é um fenómeno que merece ser visto “em directo” e, se possível, fotografado.

Figura 5: Composição de várias fotografias revelando a evolução de um eclipse total do Sol. Foto por F. Espenak.


Como a observação directa ou a observação de um eclipse total, a observação deste tipo de eclipse deve ser cuidadosa e sempre através de um filtro protector adequado, a observação desprotegida pode causar queimaduras irreversíveis da retina, como tal este aspecto nunca deve ser descurado.
Ficam pois então aqui alguns dados importantes que poderão servir de referência para o fenómeno (os dados são referentes a Braga mas todo o Norte do país será “brindado” com a visão do eclipse).

Local: Braga
Latitude: 41°32'N
Longitude: 8°26'W
Início: 7:32:12
Ocultação total: 8:53:30
Final: 10:16:30
Duração: 2m 27s
Altura: 24°
Azimute: 120°


Alexandre Aibéo



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